Arrebentando a corda do lado mais fraco: pandemia impacta mais as mulheres

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A crise econômica causada pelo coronavírus já é grande e vem sendo percebida no mundo inteiro mas, como sempre, uns sofrem mais o impacto do que outros. Como se sabe, a corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco.

As mulheres que já eram sobrecarregadas, trabalhando dentro e fora de casa, tiveram suas vidas ainda mais afetadas pela pandemia. São elas as que mais sentiram o peso das mudanças impostas pelo vírus, não apenas na prática, com filhos em casa etc, mas também emocionalmente por serem as primeiras a perder espaço na economia do país.

A pandemia agravou a situação de emprego e geração de renda das mulheres, principalmente das mulheres negras, grupo que ocupa, historicamente, posição menos favorável no mercado de trabalho.

A economista Lúcia Garcia, pesquisadora da área de mercado de trabalho do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), explica que historicamente o cenário vem sendo desfavorável para as mulheres.

“Elas estão sofrendo mais com o atual cenário seja porque os setores tradicionais de inserção [no mercado de trabalho] estão sendo ajustados e as condições de trabalho piorando, seja porque as famílias estão empobrecendo e as mulheres têm de entrar na busca da renda das famílias, seja porque estão perdendo dinheiro com os cortes de programas sociais”.

Setores econômicos mais afetados pela pandemia: doméstico e beleza

Segundo o 3° boletim da Rede de Pesquisa Solidária, o “Covid-19: Políticas Públicas e as Respostas da Sociedade” coordenado por Rogério Barbosa do CEM-USP – os trabalhadores domésticos foram os mais impactados com as medidas de isolamento social, seguidos dos prestadores de serviços pessoais de beleza. 

Não por coincidência, esses serviços são justamente aqueles compostos em maior número por mulheres.

No Brasil, 92,4% dos trabalhadores domésticos são mulheres e, 7 em cada 10 mulheres, ficaram desempregadas ou perderam horas de trabalho devido às quarentenas, de acordo com a Cepal, que calcula em 77% a informalidade do setor.

O trabalho doméstico no Brasil é pautado de exclusão e precariedade trabalhista, e as empregadas estão sofrendo em cheio os efeitos econômicos da pandemia, que as deixou confinadas e sem trabalho.

Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dados disponíveis de abril, mostram que o Brasil sofreu a maior perda de trabalhadores domésticos em nove anos. No período de janeiro a abril, 727 mil pessoas deixaram de trabalhar nesse serviço, uma queda de 11,8% em relação ao período anterior. Para os sem carteira, a queda foi maior, de 12,6%.

Trabalhadores informais

Foram afetados significativamente também pela pandemia, os trabalhadores informais. 

Segundo o IBGE, o trabalho informal é a principal ocupação da população de 11 estados brasileiros e, em 2020, ele atingiu 41,1%, seu maior nível desde 2016, e bateu recorde em 19 estados e no Distrito Federal.

Quando se olha apenas para as mulheres negras, elas correspondem a 74% das mulheres sem registro.

No ramo da beleza, o mercado de trabalho também é composto por maioria de mulheres, principalmente entre os empreendedores. Isso porque o setor de beleza é o que mais atrai o empreendedorismo feminino. São pouco mais de 1 milhão de donas de salões, cabeleireiras e manicures, de um total de 6,6 milhões que têm um negócio. As informações são do Sebrae, e refletem um cenário de 2012.

Fica evidente que o impacto maior para as mulheres acontece por serem a maioria no trabalho doméstico e informal e minoria nos serviços essenciais, que foram mantidos.

Além disso, as mulheres negras, também têm maior impacto, por terem maior participação na informalidade, primeiros postos a serem afetados na crise.

Vulnerabilidade do emprego e menor presença em serviços essenciais

Mas, para além dos setores doméstico, beleza e informais que foram muito afetados com a pandemia, as mulheres também ficaram mais sujeitas à perda do emprego, em qualquer setor, por estarem menos presentes em atividades consideradas essenciais, como transporte e logística, construção civil, indústria, produção de alimentos, agropecuária, eletricidade e gás.

Além do desemprego, muitas vão encarar um outro desafio: o retorno ao mercado de trabalho.

Pesquisas já estão demonstrando que, na hora da recontratação, as empresas e serviços estão dando preferência aos homens em detrimento das mulheres.

Além do mercado estar mais restrito e competitivo, elas sofrem mais um viés. O mercado não está preparado para recebê-las.

A pergunta que vem inquietando muitas mulheres, principalmente aquelas que têm filhos, é como trabalhar fora se escolas e creches estão fechadas pela pandemia? Onde deixar os filhos para ir trabalhar?

Essa preocupação, mostra a falta de políticas públicas voltadas para atender essa demanda e, principalmente, a falta de vontade política e empresarial para resolver o problema.

Movimento nos EUA, shecession

Essa situação não afeta só às mulheres no Brasil.

Nos EUA, segundo uma análise realizada pelo Institute for Women’s Policy Research, 60% das perdas de emprego foram experimentadas por mulheres. 

A presidente do Instituto de Pesquisa e Política para Mulheres, Nicole Mason, uma das maiores autoridades no assunto, nomeou a crise econômica causada pela pandemia de shecession,  ou em português, “recessão feminina”, uma vez que a taxa de desemprego das mulheres quintuplicou de fevereiro a abril deste ano, contabilizando 20 milhões de empregos perdidos.

Ela acredita que esses números mostram a vulnerabilidade da mulher no mercado de trabalho e a falta de políticas públicas para eliminar a desigualdade no emprego e renda em relação aos homens.

Aumento da carga de trabalho doméstico

Além da falta ou perda de trabalho, para aquelas mulheres que conseguiram manter seus empregos, já está comprovado que tiveram um aumento exponencial na quantidade de trabalho doméstico durante a quarentena.

Segundo pesquisa do The New York Times, curiosamente, mais da metade dos homens dizem estar ajudando os seus filhos com o ensino à distância, mas apenas 3% das mulheres concordam com isso. Com a pandemia, as mulheres ganharam ainda mais tarefas domésticas.

No Brasil, de acordo com os dados do IBGE, em 2019 as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais em trabalhos domésticos, enquanto os homens, 10,9 horas. Esse cenário tende a se agravar com o adoecimento de um grande contingente de pessoas durante a pandemia.

Relações doméstica x abuso de álcool e outras drogas

E essa situação de instabilidade financeira, falta de trabalho regular e quarentena, impacta também diretamente nas relações domésticas que as mulheres estão inseridas.

Viviane Duarte, fundadora do Instituto Plano de Menina, notou durante o projeto de atendimento psicológico na pandemia, que as relações abusivas têm impactos nos projetos de vida das mulheres.

“Temos recebido mensagens de meninas e mulheres exaustas que relatam o aumento do consumo do álcool e das brigas dentro de casa. A maioria possui empregos informais e tem enfrentado dificuldades econômicas”

Ação do governo

Infelizmente, o governo brasileiro não promoveu nenhuma pesquisa, estatística ou levantamento de dados para saber qual impacto da Covid-19 na geração de renda e emprego, especificamente em relação às mulheres.

O Ministério da Economia, responsável pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que mede a taxa de desemprego mês a mês, afirmou, por meio da assessoria de imprensa que não realiza o recorte de gênero em seu levantamento.

“Houve mudanças na metodologia e nem todas as fontes de coleta de dados possuem essa variável”, diz a nota.

Portanto, não é possível saber quantas mulheres perderam seus empregos dentre os 1,1 milhão de postos de trabalho com carteira assinada fechados entre março e abril no país.

Para piorar, inexistem planos do governo ou das empresas para compensar a desigualdade de gênero no trabalho, que foi intensificado na pandemia. Nem tampouco contemplam rotinas para as mulheres que temem o desemprego ou que precisam retornar, mas não têm onde deixar seus filhos, com escolas e creches fechadas.

O cenário é alarmante e o caminho não está desenhado nem fomentado com as políticas públicas necessárias. O barco está à deriva, infelizmente, e a corda já arrebentou.

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Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher
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