Atenção à saúde mental dos pequenos: cada vez mais crianças estão tentando o suicídio

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Nessa rua, nessa rua, tem um bosque, que se chama, que se chama solidão… ” Algumas cantigas de roda costumam ter letras tão tristes, dissonantes do que deveria ser uma brincadeira de ciranda. A verdade é que me lembrei disso quando chegaram os números que tinha pedido para checar. Eles saltaram da tela do celular e me deram um soco no estômago. Em 2020, 19 crianças deram entrada no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, no Paraná, porque se auto-agrediram e tentaram se matar.

No ano seguinte, 2021, foram 52 dessas tentativas. E 2022 parece estar muito pior: só até agosto, as equipes de saúde da instituição já socorreram nada menos do que 41 meninos e meninas que quiseram dar cabo à própria vida. Por isso, a projeção é de um crescimento de 173% desses casos sombrios.

Mais de metade são adolescentes, com uma concentração dos 13 aos 14 anos. No Brasil, de acordo com dados do governo, o suicídio é a terceira maior causa de morte na adolescência e as tentativas de se matar figuram no topo do ranking das emergências psiquiátricas nessa faixa etária.

Espantoso, porém, é ver que 20% dos atendimentos nessas circunstâncias são de garotos e garotas com menos de 12 anos. O hospital curitibano já chegou a cuidar de uma menininha apenas de 7 que engoliu a cartela de comprimidos para dormir da mãe porque sabia que eles lhe fariam mal.

Talvez você questione se não seria exagero tomar a realidade desse lugar como o todo. Pode ser. Mas vale lembrar que o Pequeno Príncipe é uma instituição filantrópica que há mais de 100 anos é referência em pediatria no país, realizando 200 mil atendimentos por ano, 60% deles pelo SUS. Inegavelmente seus números servem de parâmetro para a gente estimar o que está acontecendo, já que essa epidemiologia é velada porque o assunto é tabu.

A Pandemia

Segundo Angelita Wisnieski da Silva, que coordena o serviço de psicologia da Casa de Apoio e o Programa Família Participante do hospital, o distanciamento social imposto pela covid-19 parece ter agravado as coisas, levando esses episódios a dar um salto. “Mas ele não pode ser apontado como a única causa para esse aumento”, afirma

Por trás da fragilidade psíquica podem existir diversos fatores, que vão desde uma tendência genética à depressão a doenças físicas, problemas familiares, dificuldades na convivência social, exposição à violência e o uso de substâncias, como álcool e drogas. Desse modo, talvez a pandemia tenha servido de gatilho para quem já tinha alguns desses fatores.

A escola, reconhece a psicóloga, fez uma falta danada. Mas, de novo, não apenas pela imagem risonha de crianças brincando no recreio com coleguinhas da mesma idade e, sim, porque muitas vezes é ali que elas têm a oportunidade de entrar em disputas, brigar, se desentender, ficar frustradas e se decepcionar.

Isso torna o ambiente escolar ideal para treinar habilidades sociais que são extremamente necessárias para uma pessoa enfrentar sem desespero momentos não tão bons que acontecem na vida de qualquer um, até mesmo na de uma criança. Sofrer, nesse sentido, é um aprendizado. “E por isso, também, é que a escola é considerada um fator de proteção”, informa.

Além de algo tão perturbador nunca ter uma única razão, episódios assim costumam envolver toda sorte de questões graves acontecendo sob o teto do que seria um lar e elas não caberiam nem em dez colunas como esta.

Tampouco há “receita de bolo”, uma fórmula exata do que fazer ou deixar de fazer para evitar esse tipo de evento. As sugestões pinçadas da conversa com Angelita são cotidianas, diria singelas. No entanto, podem nos ajudar a fazer algumas reflexões inadiáveis

Para começar, Angelita sugere limitar o tempo de uso de telas e seus argumentos estão longe dos que soariam mais óbvios, mesmo quando ela fala sobre a importância de a família de ter mais momentos de conversa trivial.

“Se a criança — e, muitas vezes, o adulto junto — está com os olhos apenas no seu tablet ou celular em vez de reparar em tudo o que está acontecendo à sua volta e explorar o mundo, há um prejuízo para as relações humanas”, explica. “E essa dificuldade para se relacionar, cultivada por hábitos aparentemente tão comuns, tem diversas consequências, como a criança não perceber a possibilidade de falar sobre o que está sentindo, guardando para si todas as suas angústias.”

Insistindo no exemplo do excesso de telas, Angelita observa que, na mesa do restaurante, a criança entretida com algum joguinho perde a noção de que o seu pedido não chega depressa. “Há um tempo de espera, em que alguém está preparando aquela comida”, diz Angelita.

Momentos assim, se realmente vivenciados, treinam alguém desde pequeno para não ser tão imediatista. No contexto da prevenção do suicídio infantil, isso também faz diferença. Porque a criança que não está sabendo lidar com suas emoções, sem ter nem sequer uma noção clara da irreversibilidade da morte, só quer fazer qualquer coisa para calar sua dor de imediato. Viver — e querer viver —- é um treino de paciência.

Além do mais, esperar também tem a sua graça, porque outro aspecto fundamental é ter propósito na vida. “Não pense em ensinar uma criança a ter grandes propósitos, como salvar o mundo”, avisa Angelita. “Na infância, os propósitos podem começar com coisas bem mais simples, como precisar fazer alguma tarefa e esperar — de novo, esperar! — o horário para assistir a um filme“, exemplifica.

Ela lembra da época em que a garotada aguardava o final de semana para ir com os pais a uma locadora escolher a fita cassete que gostaria de levar para casa. Além de correr o risco de frustração por outra pessoa já ter levado aquele filme, a criança valorizava o momento.

“Hoje, em tempos de streaming, ela liga a tevê fechada e tem todos os filmes à disposição”, faz a analogia. “Sem a alternância entre conseguir prazer e não conseguir, o dia a dia se torna monótono. Logo, a vida vai ficando sem tantas sensações positivas.”

O recado nas entrelinhas também é para os pais que proporcionam tudo o tempo todo.

Parece que estão fazendo alguma coisa boa pelo filho, mas no fundo isso vai roubando a graça do cotidiano e a criança vai perdendo a noção de que há dias legais e dias nem tanto. Desse modo, diante de uma crise, o resultado pode ser a sensação de que nada muda mesmo e de que nada é capaz de melhorar.

“Deixar a criança alienada da realidade nunca ajuda”, afirma Angelita. “Se ela passa na sala quando o noticiário está falando de guerra, melhor não negar que isso existe sob a alegação de que não é assunto para ela.”

Também não é para assustá-la com uma ameaça nuclear.

“Tudo é questão de dosar a informação conforme a idade, mostrar sempre que você está por perto e buscar o tal do equilíbrio entre escancarar o que é ruim e criar em uma bolha de proteção”, opina Angelita. “O menino, desse modo, percebe que não é o único a passar por coisas difíceis e que tem espaço para falar o que está lhe afligindo com os adultos da família.”

Por falar nisso, ser criado em uma casa cheia de brigas e violência nunca é saudável — todo mundo sabe disso. “Mas viver em um ambiente de propaganda de margarina em que os conflitos são deixados sob o tapete também não é bom”, nota Angelita. “Sem querer, esse clima ensina à criança que ela não pode demonstrar quando está triste.” E algumas tristezas dão nós difíceis para ela desembaraçar sozinha.

Cuidar de outra vida

É uma dica que a psicóloga costuma dar. Um cachorro, um gato, um peixe de aquário, quem sabe uma planta — sem deixar para o pequeno tarefas complexas como levar o animal para passear sozinho ou dar um remédio.

“Se eu sou responsável por uma vida, sinto que tenho valor”, justifica. “Noto que esse ser depende de mim e que sentirá minha falta se, um dia, eu não estiver ali.” Prevenir o suicídio é também mostrar que a sua vida faz diferença para os outros.

“Não quero mais viver” ou “sou uma porcaria e quero sumir” ou, ainda, um direto “quero me matar” — devemos levar essas frases a sério. “Precisamos desmitificar aquele papo de que quem sempre fala em se matar não irá tentar isso pra valer”, alerta Angelita. “Especialmente quando se trata de criança.”

Até porque é da natureza da infância testar o limite se os pais ou responsáveis não colocam um freio — no caso, parando para ouvir e falando sobre o assunto. Acima de tudo, nessas horas é preciso buscar ajuda profissional.

Claro que existem meninos e meninas que disparam frases do gênero em um instante raro de pura birra. “Aí, cabe aos pais diferenciar, desligando-se eles próprios de distrações para conhecerem muito bem o filho, notando se não há outros comportamentos como ficar mais isolado, sem apetite e nem vontade de fazer coisas que antes eram prazerosas”, pensa a psicóloga do Pequeno Príncipe.

 

Fonte: Viva Bem

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Nascida e criada em São Paulo, é publicitária formada pela Faculdade Cásper Líbero e Master em Programação Neurolinguística. Trabalha como redatora publicitária, redatora de conteúdo e tradutora de inglês e espanhol. Apaixonada por animais e viagens, morou no Canadá e no Uruguai, e não dispensa uma oportunidade de conhecer novos lugares e culturas.
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