Imunidade de rebanho: o que os líderes mundiais que acreditaram nela têm em comum e porque ela não funciona

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Alguns poucos países, como é o caso do Brasil, México, Suécia, EUA e Reino Unido, contrariando a orientação de quarentena e isolamento como medida para conter a pandemia do coronavírus, não aplicaram, inicialmente, planos de contenção, testagem em massa, fechamento de serviços e fronteiras. Primeiro porque menosprezaram a potência e gravidade do vírus, segundo porque acreditaram que a infecção de grande parte da população, em curto prazo e ao mesmo tempo, garantiria o controle do vírus, com a chamada “imunidade de rebanho”.

Nem uma coisa, muito menos a outra.

Os países negacionistas

Aqui no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, desde quando iniciaram as primeiras mortes em março, dizia que “todo mundo iria pegar o coronavírus”, que “era impossível impedir que todos pegassem e alguns mil morressem”, afirmando que acreditava na imunidade de rebanho, desejando que quanto antes o maior número de pessoas fosse infectada, mais rápida a chance da população ficar imune ao vírus.

Nos EUA, inicialmente, a estratégia de combate ao coronavírus foi pouco contundente, não apostando em políticas de isolamento e quarentena, sendo um dos países em que grande parte da população é negacionista da Covid-19, termo que inclusive já foi incluído na Wikipedia.

Na Suécia, o negacionismo das autoridades públicas quanto à gravidade da Covid-19, a falta de planejamento e de medidas de contenção do vírus, fizeram com que o país instaurasse uma comissão independente para apurar as responsabilidades na gestão da pandemia.

No México, em março, no início da pandemia, o presidente López Obrador seguia reduzindo a importância das medidas de proteção ao coronavírus, pedindo beijos e abraços e o não isolamento da população.

No Reino Unido, Boris Jonson, antes de ele próprio ser infectado e de ver seu país crescer em número de mortos e infectados, também negou a gravidade da Covid-19, apostando na imunização em massa.

E o que todos esses países têm em comum?

Um enorme número de infectados e mortos pela Covid-19, todos ocupando o topo do ranking mundial, dois delas, EUA e Brasil, nos 1º e o 2º lugar, respectivamente.

Autoridades governamentais relutantes em adotar medidas para controlar a pandemia enfrentam agora número recorde de afetados pelo coronavírus.

Imunidade de rebanho não funciona

Alguns países, como é o caso da Suécia, já reconhecem oficialmente que a tentativa de imunidade de rebanho falhou.

De acordo com a conclusão de dois pesquisadores da University College London, publicada no editorial do Journal of the Royal Society of Medicineum, as previsões do governo sueco eram de que em maio 40% da população sueca estivesse infectada e, portanto, com anticorpos. Porém, segundo estudos sorológicos, o percentual de anticorpos está próximo a 15%, muito abaixo do esperado. Já os números de infectados, doentes e mortos é muito superior a de países vizinhos, corroborando com a conclusão de que melhor teria sido a prevenção, do que a exposição em massa da população, sem medidas de controle.

É exatamente o que aconteceu nos EUA, Brasil, México, Reino Unido, Índia e outros países que demoraram em tomar medidas preventivas, apostando na imunidade de rebanho.

Mas além da infecção e morte de muitas pessoas, a imunidade de rebanho traz outros problemas, como por exemplo, sufocamento das unidades de saúde e dificuldade na retomada dos serviços e abertura do comércio, porque o ciclo não fecha, e as taxas de mortos e infectados não diminuem e as medidas de isolamento nunca cessam.

Mas afinal, por que a imunidade de rebanho não funciona?

Imunidade sem vacina não existe

Especialistas apontam que a imunidade de rebanho só funcionaria se mais de 90% da população fosse infectada ao mesmo tempo e ainda assim com aplicação concomitante de vacina.

Somente nessas condições, seria possível atribuir à população anticorpos capazes de conter a circulação e propagação do vírus.

Segundo a Especialista da Sociedade Brasileira de Imunologia Cristina Bonorino disse ao Catracalivre:

 “Imunidade de rebanho é um conceito criado pelos imunologistas para explicar como a vacina funciona, para determinar as estratégias de vacinação. Ela é impossível de se obter naturalmente. Isso não existe”.

“É só pensar quantos milênios a humanidade foi suscetível à varíola. Nunca existiu imunidade de rebanho para a varíola antes da vacinação”, explica a imunologista.

Para Cristina, propor a imunidade de rebanho não é só inatingível, é antiética.

Ela destaca que as pessoas são transeuntes, se movimentam, vêm e vão e continuam a nascer, e toda vez que há uma dinâmica diferente, circulação ou chegada de novas pessoas, o suposto “equilíbrio” pretendido pela imunização de rebanho, é alterado e facilmente desfeito.

Isso sem considerar que os cientistas já vêm apontando que os anticorpos produzidos naturalmente por pessoas infectadas pelo coronavírus, não permanecem no corpo por um período muito longo, estimam-se 3 meses, apenas, o que não garante imunidade.

Já foram identificados pacientes que foram reinfectados pelo vírus, embora sejam raros os casos, a reinfecção não é impossível.

Dessa forma, fica evidente que não dá para contar com uma imunidade coletiva até porque os estudos indicam que ela é passageira e, portanto, somente uma vacina poderia trazer essa eficiência duradoura.

O diretor para doenças infecciosas da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), Marcos Espinal, disse ao El Pais, que apostar na imunidade de rebanho é um equívoco:

“É estimado que entre 50% e 80% da população de determinado local precisa ter sido imunizada ou infectada pelo vírus, e ainda assim, tem chances dos anticorpos decaírem após alguns meses do contágio”.

Para Marco, é inconcebível arriscar vidas humanas aplicando esse modelo porque o custo para a saúde e para a sociedade seria altíssimo.

Bons exemplos

Porque não seguir exemplos como o da Nova Zelândia que, com testagem em massa, lockdown sério, rastreamento de doentes e fechamento das fronteiras conseguiu praticamente extinguir o coronavírus do país, com poucos infectados e um número baixíssimo de mortos.

O modelo de testagem massiva da população, controle por rastreamento de contato, monitoramento e isolamento dos infectados, além de investigação das pessoas que possivelmente mantiveram contato com o doente, são estratégias muito mais eficientes para mitigar a propagação da doença e, principalmente, salvar vidas, isso está absolutamente comprovado.

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Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher
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