Avareza, sovinice e ganância: quando a busca pela “sobrevivência” gera tristeza e solidão

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Quem não conhece um sovina, pão-duro, mão-de-vaca, unha-de-fome, muquirana ou simplesmente avarento? Estes são péssimos adjetivos para se dar a alguém, no entanto estamos cercados de gente assim. Tanto é que não faltam na literatura, nas artes audiovisuais e nos exemplos da vida, histórias e fatos sobre pessoas que não abrem a mão nem para dar tchau.

Mas a avareza, ganância ou sovinice não é apenas uma exclusividade humana. É também uma questão de sobrevivência para todas as espécies. Veja o que dizem os especialistas sobre a avareza em todos os seus aspectos, dos pontos de vista biológico, social e psicológico.

De onde vem a avareza?

Avareza ou sovinice é uma atitude ligada à dificuldade e ao medo de perder algo que se possui, como bens materiais ou recursos. Assim, o avaro é aquele que evita a todo custo usar ou dar coisas por temer desperdício, perdas e prejuízos.

Na religião, a avareza significa ganância e, por isso, ela é considerada um dos sete pecados capitais. Mas há de se fazer distinções. Especialistas, como o biólogo e professor de estudos ambientais da Universidade da Califórnia, Michael Soulé, defendem que necessidade é diferente de ganância.

Todas as criaturas são egocêntricas e egoístas, porque, instintivamente, desejam e procuram energia e outros recursos. Todas as espécies seriam extintas em poucos meses ou anos sem impulsos egoístas”, afirma Soulé para a revista Superinteressante.

O que o biólogo explica é que, de certo modo, e em certa medida, ser avaro constitui uma característica importante para a preservação das espécies. Apesar dessa afirmação, a consciência do egoísmo e da avareza é exclusiva da homem, pois nem mesmo os macacos, as baleias e os golfinhos, animais com cérebros mais desenvolvidos, têm a consciência da avareza que o homem tem. Por exemplo, um pato de verdade jamais poderia nadar numa piscina de moedas como a do Tio Patinhas, mesmo que a piscina fosse cheia dos seus alimentos prediletos.

Só um humano é capaz de juntar coisas que, de verdade, na prática, não servem. Um animal junta recursos e os economiza na medida do saudável, na medida da sua preservação. Já o homem….

Características de um avarento

A principal característica de um economizador patológico é o fato de que o seu exagero em economizar gastos, não faz parte de uma razão lógica, objetiva.

Além disso, uma pessoa avarenta é caracterizada por:

  • Evitar fazer gastos que poderia tranquilamente fazer, sem que sua sobrevivência fosse prejudicada;
  • Ter rendimentos sólidos e uma posição estável, o que permitiria a pessoa de ter uma vida economicamente estável, mas viver negando essa estabilidade;
  • Usar as mesmas coisas durante anos, mesmo coisas que não funcionam bem ou que são velhas, só para não gastar;
  • Evitar o uso de bens como telefone e ter mania de apagar todas as luzes mesmo em situações que precisaria destes bens;
  • Comprar produtos mais baratos no supermercado, mesmo que de qualidade inferior, podendo comprar coisas melhores;
  • Nunca convida ou oferece coisas às pessoas e, ao contrário, espera sempre ser convidado para não ter de gastar;
  • Odeia presentear porque pensa ser um desperdício. tem gente que até guarda os presentes que ganha para dar a outras pessoas, só para não gastar.

A psicologia do avaro

Está no prazer a grande diferença entre um avaro e uma pessoa que economiza porque quer viver uma vida mais simples, minimalista, porque de fato está buscando a simplicidade das coisas, e é feliz desse jeito.

Pessoas simples podem ser gratas, solidárias e muito generosas.

Já o avaro é aquele que nega prazer a si e ao próximo. É aquele que tem condições de viver de uma forma melhor e mais confortável mas nega tudo porque não sabe viver, não sabe ser feliz. É a economia do prazer e da alegria, não só do dinheiro.

Não é por não ter dinheiro, ou por ter planos futuros, a razão dos avaros é guardar só por guardar, ou para realizar planos que jamais serão executados porque são meras desculpas inconscientes para se boicotar da alegria.

Uma das formas mais seguras de se obter a tão desejada felicidade na vida, é através da generosidade, da gentileza, da gratidão e da solidariedade. Palavra da ciência:

É a gratidão às coisas da vida (e não a avareza delas por medo de perdê-las) que nos dá o poder transformador da prosperidade.

A ciência da avareza

Existem dois tipos de avareza: aquela necessária à sobrevivência e a que trata do acúmulo desnecessário.

A primeira garantiu a nossa presença na Terra e é tão antiga quanto a própria vida. A segunda vem sendo estudada pela Ciência, mas ainda não foi descoberta uma região específica no cérebro responsável pela sovinice.

Quando a pessoa tem impulsos para praticar inveja, orgulho, ódio, gula, preguiça, luxúria e avareza, dez centros diferentes no cérebro são ativados. A maior parte deles está localizada no sistema límbico, responsável pelas emoções.

“O problema é como chegar à ciência da ganância sem a ajuda de células ou definições sólidas”, afirma o neurocientista John Medina no livro The Genetic Inferno, Inside the Seven Deadly Sins.

A psicologia chegou à conclusão de que a ganância é a ambição nua (agressão), um medo paralisante de desenvolvimento (ansiedade) ou a combinação de ambos. A cobiça é uma forma primitiva de detectar o medo de que algo saia do controle. O acúmulo seria uma forma de se precaver contra essa ameaça.

É comum que pessoas que tenham passado por grandes privações na vida, mantenham sempre o estado de alerta para não passarem miséria de novo. Medina usa o exemplo de Pedro, um português que teve uma infância muito pobre e foi tentar a vida nos Estados Unidos. Lá, realizou o sonho americano e conseguiu reunir um bom patrimônio. Mesmo assim, levava consigo atitudes dos tempos de miséria, como rasgar guardanapos pela metade para reutilizá-los e recolhia alimentos nas latas de lixo da cidade. Tudo isso para economizar um dinheiro que não faria falta para sua sobrevivência.

Para o neurocientista, essa atitude se dá pelo fato de Pedro ter medo, fobia, ansiedade e estresse pós-traumático. O medo da pobreza causou uma reação de extrema sobrevivência, de guardar para garantir o futuro, mesmo quando não era mais necessário.

Para a Igreja Católica, essa característica se perpetua por uma má formação da consciência moral no ambiente familiar. Os cristãos definem o pecado da avareza como um apego exagerado aos bens materiais.

“Este pecado torna a pessoa mesquinha e egoísta e a deixa cega para a realidade do próximo, matando no avarento o princípio fundamental do cristianismo: a caridade”, afirma para a Superinteressante o padre Leandro Miguel Chiarello, diretor da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Para a religião, as pessoas avarentas não conseguem ser solidárias pela incapacidade de abrir mão do que é seu em favor do outro. Para a psicologia, o apego não é por dinheiro, mas sim pelo acúmulo (riquezas, bens e objetos).

Questão de hormônios

A Superinteressante também cita uma explicação sobre a avareza poder estar relacionada aos hormônios testosterona e ocitocina. De acordo com um estudo realizado pelo Departamento de Economia da Universidade Graduada de Claremont (EUA), em 2009, a mulher é mais generosa que o homem.

A diferença entre os gêneros poderia ser uma questão dos hormônios: testosterona e ocitocina.

A ocitocina é um hormônio mais comum nas mulheres e estimula a generosidade, tanto que ela é considerada o hormônio do amor. Já a testosterona é prevalente nos homens.

Segundo o neuroeconomista Paul Zak, a testosterona funciona como um antagonista da ocitocina. Os homens possuem 10 vezes mais testosterona do que as mulheres, por isso são mais egoístas do que elas.

Apesar de na vida conhecermos mulheres sovinas e homens generosos, o estudo chegou à constatação destas diferenças através de testes realizados com estudantes, que receberam concentrações de testosterona em gel ou placebo, enquanto outros receberam apenas o gel sem o hormônio.

Após o período de aplicação, os grupos foram submetidos a um jogo de computador onde teriam que partilhar quantias em dinheiro. Foi constatado que os participantes com maior quantidade de testosterona no sangue eram 27% mais egoístas do que os outros.

O mesmo teste foi feito com gel de ocitocina e o resultado foi que a generosidade dos participantes que receberam esse hormônio aumentou em 80%.

A criança carente de hoje vai ser o pão-duro de amanhã

O que vai definir se o sujeito será um avarento ou um gastador compulsivo é a história de vida dele. Segundo o neurocientista Gilberto Xavier:

Os avarentos sentem necessidade de acumular e guardar. E dificuldade para compartilhar. É muito provável que isso tenha relação com a história de vida dessas pessoas.”

Não se trata apenas de apego ao dinheiro, mas sim de perder o que se tem. O comportamento avaro é uma consequência da privação de afeição e acolhimento. Ou seja, o apego às coisas tem a ver com a nossa história amorosa, principalmente da infância, de como fomos criados: se com abundância ou com economia de amor, atenção e carinho. Se com segurança, ou com medo de perder coisas?

Calma que a avareza tem cura

Os avarentos só se dão conta de serem o que são quando as pessoas próximas começam a reclamar, quando sua vida social começa a balançar, perde amigos, não encontra parceiros, afinal, quem quer se relacionar com um avaro? A maioria procura ajuda por recomendação de familiares, amigos ou por recomendação médica.

Reconhecer o problema é o primeiro passo e muitos avaros não se acham muquiranas porque se enxergam, de fato, em uma situação de precariedade. Acreditam que precisam guardar e economizar sem haver uma justificativa lógica para isso.

A psicoterapia pode ajudar pessoas assim a limparem seus olhos dessa névoa obscura. O segundo passo para tratar o problema é entender as razões para esse tipo de comportamento, e descobrir como ter o controle sobre o medo da perda, seja econômica que afetiva.

Isso só é possível com tratamento médico ou terapia de apoio. Basta querer e estar disposto para a mudança afinal, afeto não é coisa que se guarde para se ter mais tarde. É isso o que os avaros precisam entender!

Ricos e sozinhos

Assim como não gastam com dinheiro, com objetos, com presentes, pessoas avarentas não são generosas  em nenhum outro aspecto da vida. Elas economizam amor, afeição, tudo…

Presos em seus próprios medos, os avaros podem ser alguém com depressão, fantasias de catástrofe, ansiedade, etc. Geralmente, o avarento termina sua vida sozinho e com uma grande fortuna guardada, a qual vai parar nas mãos de uma pessoa qualquer porque parentes e amigos viraram desafetos em suas vidas.

Finalizando com a opinião do Dr. Hiroshi Ushikusa:

“O avarento afetivo é o maior causador da sua própria carência afetiva… Ser feliz custa bem menos do que imaginamos, basta desenvolver a capacidade de amar. Quem tem a capacidade de amar a si próprio, tem a capacidade de amar ao próximo.”

A avareza é uma característica comum na biologia, mas não deve ser considerada normal se ela for algo que atrapalha o próprio desenvolvimento e o relacionamento com as outras pessoas.

Todos nós temos ou tivemos algum tipo de avareza em nossas vidas: não querer compartilhar certas coisas, ter xodó com alguns objetos… Mas se estamos enquadrados em todas, ou em várias, características citadas neste artigo, é melhor ligar o alerta e buscar ajuda profissional.

Afinal, para quê dinheiro se não tivermos com quem compartilhar os benefícios que ele proporciona? 

Por um mundo melhor para todos: menos avareza, mais gratidão e generosidade!

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Formada em Administração de Empresas e apaixonada pela arte de escrever, criou o blog Metamorfose Ambulante e escreve para GreenMe desde 2018.
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