Jornada de trabalho de 4 dias pode mudar a visão empresarial de produtividade

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Debate em todo o mundo e já adotado por alguns países, a proposta de redução da jornada de trabalho para quatro dias na semana tem ganhado força entre os brasileiros. Apesar de os projetos de lei que estabelecem a jornada de trabalho para 32 horas semanais — ao invés de 44 horas — estarem parados no Congresso, a atual legislação trabalhista permite que os funcionários trabalhem menos.

Nesse cenário, experimentos nacionais já mostram os benefícios da redução.  Empresas como a Agência Shoot se destacaram pelo pioneirismo em estabelecer esse modelo no país. Luciano Braga, CEO da organização, destacou à Educa Mais Brasil que o interesse em trabalhar na empresa cresceu 300% após a redução da jornada na agência.

Especialista em neurociência comportamental e produtividade, Yuri Utida explica que o mercado de trabalho tradicional é fruto de uma Era Industrial — oriunda de 1920, quando a montadora estadunidense Ford instituiu a lógica de cinco dias de trabalho e dois de descanso para aumentar a produtividade e reduzir o absenteísmo nas fábricas. Entretanto, a lógica de um horário comercial inflexível não reflete a sociedade atual.

Na era da hiperconectividade, com internet, smartphones e a infinidade de ferramentas e possibilidades, questionar esse modelo é natural, segundo o neurocientista, em especial após a Covid-19. No estudo The Case for a Four-Day Week, da New Economic Foundation, argumenta-se que a semana de trabalho mais curta deve ser o cerne de uma recuperação pós-pandemia, pois produz colaboradores melhores, menos estressados, com menores doenças laborais e possibilita a criação de novos empregos.

“Nós vivemos com tecnologia e flexibilidade nas nossas vidas, nos relacionamentos, nos estudos e até na forma como compramos. Por que essa lógica não deve valer para o mercado de trabalho? É debatido que isso é um reflexo da pandemia, quando na verdade essa é uma necessidade que já existia desde o começo dos anos 2000. Isso, não apenas pela possibilidade de trabalhar de casa ou ter uma jornada de trabalho flexível, mas porque modelos de sucesso estabelecidos nesta lógica industrial também mudaram”, pontua Yuri.

O neurocientista destaca que, se antes o ideal de sucesso profissional estava restrito a uma pessoa que vivia para trabalhar, com altos níveis de estresse e que comia na mesa do escritório, a nova geração tem como prioridade o equilíbrio entre produtividade, saúde e bem-estar. Da mesma forma, as empresas percebem que precisam de pessoas com saúde emocional, mental e física para manter a qualidade, o lucro e o potencial de crescimento.

“Não adianta colocar pessoas em escritório, ocupadas cinco a seis dias por semana, muitas vezes sem serem produtivas e lidando com ansiedade e depressão, se é possível reduzir despesas e aumentar lucros ao instituir uma rotina de trabalho equilibrada, na qual os colaboradores são mais focados, felizes e produtivos. Sem contar que isso gera menos despesas ao reduzir afastamentos e adoecimentos”, pontua o especialista.

Diversos países e empresas já experimentam a mudança, sendo alguns estudos, inclusive, anteriores à pandemia. A Microsoft Japão, por exemplo, testou em 2019 a semana de trabalho com quatro dias e concluiu que o nível de produtividade e felicidade dos colaboradores subiu em 40%, com o bônus de redução drástica em gastos administrativos como uso de papel e energia.

Nos Estados Unidos, o anseio por mudanças tem sido mais intenso. O abandono voluntário dos postos de trabalho no país — após a crise sanitária — foi chamada pelos estudiosos de “Grande Renúncia”, marcando um momento de mudança de mentalidade empresarial. Em números, 20 milhões de trabalhadores se demitiram desde o começo da pandemia em busca de trabalhos mais flexíveis.

O movimento é puxado pelos trabalhadores jovens. A fim de entender o fenômeno, a empresa norte-americana de serviços financeiros Jeffrey fez uma pesquisa e constatou que 32% dos jovens que se demitiram desde novembro de 2021, permaneceram nos cargos por uma jornada de trabalho reduzida a quatro dias por semana.

Intraempreendedorismo

Entretanto, há questionamentos sobre os benefícios da jornada de trabalho de quatro dias para os colaboradores. Isso porque outro estudo, desta vez realizado na Nova Zelândia, revelou que nem sempre a medida se converte em mais tempo de descanso, já que as cobranças e demandas podem se intensificar pela redução e aumentar o estresse dos profissionais. Para o neurocientista, o fato é mais sobre adequação à nova rotina.

“Eu não acredito que esse seja um vilão verdadeiro. A cobrança por resultados já acontece em semanas que têm feriados e na própria jornada de cinco dias por semana. Essa exigência e expectativa por produtividade se mantém. Entretanto, é uma questão de maturidade dos colaboradores e da nova geração. Entender que, se por um lado, há menos tempo na empresa e mais tempo livre, as horas de trabalho precisam ser bem organizadas e aproveitadas”, destaca.

Caso essa mudança de mentalidade quanto às cobranças não mude, a redução pode se tornar insustentável para a empresa.

“É por isso que muitas transformações não acontecem. Quando a empresa cede um dia a mais de descanso, investindo no bem-estar dos colaboradores, as pessoas devem voltar para trabalhar quatro dias por semana no mesmo ritmo de antes, né? Trabalhar menos intensamente sem ser produtivo é um ganho unilateral apenas para o colaborador e, diante disso, a empresa não vê sentido. Precisa ser uma relação de troca”, alerta.

Para o neurocientista comportamental e especialista em produtividade, a máxima de produzir com mais qualidade em menos tempo traz não apenas uma maior qualidade de vida para o colaborador, como quebra a crença empresarial de que quanto mais tempo a pessoa passa em uma empresa, mais produtiva e competente ela se torna. Uma lógica que o neurocientista e especialista em produtividade considera arcaica.

“Dentro das empresas, a tendência é que cada vez mais pessoas invistam no chamado intraempreendedorismo, que é empreender dentro da própria empresa, dentro da carreira, buscando as melhores soluções para as demandas. A neurociência explica isso sob o viés de o cérebro realizar as tarefas de acordo com o tempo estabelecido, ou seja, se você tem muito tempo para resolver um problema, a tendência é adiar e procrastinar. A partir do momento que eu diminuí uma semana, a mente prioriza as demandas e ganha mais tempo de foco. É um boost, um superávit produtivo benéfico à empresa e ao colaborador”, pontua Yuri.

Fonte: MSN

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Nascida e criada em São Paulo, é publicitária formada pela Faculdade Cásper Líbero e Master em Programação Neurolinguística. Trabalha como redatora publicitária, redatora de conteúdo e tradutora de inglês e espanhol. Apaixonada por animais e viagens, morou no Canadá e no Uruguai, e não dispensa uma oportunidade de conhecer novos lugares e culturas.
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